Fred Le Blue Assis, compositor, ambientalista, doutor em Planejamento Urbano e pós doutor em Artes
Em cena que mais parece a dinâmica sangrenta e sanguinolenta da música "Domingo no Parque" de Gilberto Gil, fomos surpreendidos com mais um crime brutal cometido no espaço público de Goiânia. Dessa vez, porém não foi nas famigeradas distribuidoras de bebidas que, doravante, não poderão funcionar mais após a meia noite, em função de projeto lei aprovado na Câmara. O palco da barbárie foi, por ironia, o Monumento da "Paz Mundial" (Siron Franco), localizado no Bosque dos Buritis, parque, onde, recentemente, o prefeito Mabel esteve com a Guarda Municipal para caçar supostos traficantes e homoafetivos que, supostamente, utilizam o local para prática de orgias. Para além disso, o crime ocorreu a menos de 300 metros do Tribunal do Justiça de Goiás, local que é símbolo dos limites legais impostos ao sujeito para uma vida social civilizada.
Nesse último Domingo, dia 27, o psicólogo e professor do IFG Arthur Vinícius Silva Lima, de 32 anos, deferiu diversas facadas contra o músico e estudante do IFG Bruno Duarte, no Bosque dos Buritis. Apesar de sido ventilada a hipótese de brigas por drogas, como já é praxe no imaginário social, jornalístico e policial, uma apuração mais fina revelou que Bruno estaria se relacionando com a ex-mulher de Arthur, com quem o agressor possui 3 filhos. Após o crime motivado por ciúmes, Arthur refugiou-se em Catalão, tendo, no entanto, sido capturado pela polícia em uma camionete dirigida por seu pai, supostamente, em situação de fuga.
Quando até um psicólogo não consegue controlar as suas emoções passionais e deixa o instinto falar mais alto, é de se pensar que tipo de subjetividade e coletividade moral estamos fomentando em Goiás com músicas, paradoxalmente, masoquistas e revanchistas. Será a sofrência alcóolica, enquanto estilo de vida e música, corresponsável por Goiás ainda figurar como um dos piores no Brasil em matéria de segurança pública no combate à violência doméstica física e psicológica? Haverá uma anulação do psiquismo no "Estado" de (da) Sofrência?
O que podemos afirmar, com certeza e sem cerveja, é que a sofrência tem cura com cultura, cabendo a música o papel de farol dos navios perdidos no "auto-mar". Para isso, temos que buscar novas referências musicais, ou, pelo menos, poéticas, que possam nos estimular uma relação mais esportiva e terapêutica com as perdas e traições amorosas. A música é uma forma subliminar de pedagogia e, enquanto não for tratada como instrumento de saúde mental (musicoterapia), estaremos poluindo o ambiente sonoro com um cancioneiro que não favorece a ecologia da mente e a sustentabilidade da cidade. Busquemos uma musicalidade que trabalhe pela comunicação não-violenta e pela cultura de paz e de amor mundial e local. OM...
Foto: Fred Le Blue
Legenda: funcionários do MAG e Centro Livres de Artes realizando oração em memória do músico Bruno Duarte


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